segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Pesquisa Gaúcha Vira Polêmica Nacional

Um projeto de pesquisa gaúcho rompeu os limites da academia e se transformou em polêmica nacional. A proposta de professores universitários de estudar jovens homicidas da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul (Fase) enfrenta a oposição de psicólogos, advogados, antropólogos e representantes de ONGs de vários Estados. No mês passado, a discordância em relação aos métodos da pesquisa elaborada em conjunto por professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) gerou um abaixo-assinado e uma carta de repúdio publicada na internet (www.ciespi.org.br/portugues/noticias_006.htm). A inclusão da análise genética e neurológica dos internos da Fase entre os aspectos analisados pelo trabalho na busca pela identificação das origens do comportamento agressivo valeu a comparação com "práticas de extermínio e exclusão" e "eugenia" (estudo dos fatores propícios ao melhoramento genético da espécie e um dos pilares das ações nazistas). O texto do abaixo-assinado diz que privilegiar os aspectos biológicos "é ratificar sob o agasalho da ciência que os adolescentes são o princípio, o meio e o fim do problema (...), desconhecendo toda a luta pelos direitos das crianças e dos adolescentes (...)". A psicóloga gaúcha Ana Luiza Castro é uma das críticas ao projeto: - A pesquisa parte do princípio de que os adolescentes homicidas da Fase são violentos, mas poderíamos estudar o cérebro daqueles adolescentes de classe média de Brasília que queimaram um índio - argumenta. Os termos do abaixo-assinado despertaram a indignação dos líderes do projeto, entre os quais se encontram os professores do Departamento de Genética da UFRGS Renato Zamora Flores e de Neurologia da Faculdade de Medicina da PUCRS Jaderson Costa da Costa. Costa acredita que o método do trabalho tenha sido mal-compreendido: - O objetivo é considerar vários aspectos, inclusive psicológicos e sociais, tentando verificar qual é o peso de cada elemento no comportamento violento. Vamos apenas começar pela Fase. A idéia depois é ampliar a pesquisa para outros grupos - explica. Flores demonstra revolta com o que considera uma censura prévia ao trabalho científico, que ainda deve ser aprovado por comissões de ética das universidades para entrar em prática: - No meio acadêmico, se pode criticar uma pesquisa depois que ela é publicada, mas não antes mesmo de ser feita. São caipiras fazendo demagogia política. E nos acusar daquelas coisas é muita baixaria, com argumentos pífios - afirma o professor. A vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia, Ana Lopes, preferiu não adiantar o posicionamento da entidade que deverá ser formalizado em uma plenária hoje, em Brasília. Por trás do debate, do lado dos detratores da pesquisa, há o receio de que ela criminalize os jovens privados de liberdade, tanto pela escolha do universo de estudo quanto pela análise cerebral, que poderia levar a crer que o problema da violência está ´dentro´ deles. Flores argumenta que qualquer pesquisa necessita de um grupo determinado para análise: - Se os jovens violentos de classe média não estão lá (na Fase), então nos digam onde é que estão para irmos atrás deles. E, se não querem que examinemos o cérebro, onde esse pessoal pensa que se encontra a função mental? No pé? - ironiza. Fonte: Zero Hora

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